Eu e as crianças
Não sou pediatra mas sempre gostei de atender crianças. Quando estava prestes a me graduar e tinha que decidir em qual especialidade fazer a residência médica, sofri por meses para optar entre Infectologia e Pediatria. Desde o início do curso, percebi que não seria um cirurgião pois não tenho a habilidade manual e a tenacidade necessárias para ser um bom profissional da área. Tão pouco escolheria especialidades restritas a um aparelho ou sistema como a gastroenterologia, a cardiologia, a neurologia. Tinham mais a ver comigo a Pediatria e a Infectologia por dois motivos principais: são especialidades generalistas pois atendem o paciente como um todo e, muito importante, muitas vezes curam a doença, ao contrário de muitas outras especialidades que apenas controlam os sintomas mas deixam o doente refém de remédios pelo resto da vida (cardiologia, reumatologia, neurologia). E, além do mais, existe um imenso terreno comum entre as duas áreas: um grande número de doenças infantis são infecciosas.
Como aquelas paixões que a gente nunca esquece, sempre estive ligado à Pediatria apesar de ter optado pela residência de Infectologia. Todos os estágios opcionais da residência fiz na Pediatria e a maré da vida me levou à Homeopatia onde pude atender às necessidades de milhares de crianças nos meus mais de cinquenta anos de profissão.
Atender uma criança recém nascida significa uma dupla tarefa porque, em primeiro lugar, é preciso ouvir a mãe, captar o que ela pensa, como age e o que sente essa figura adulta e puérpera, parte indissolúvel da dupla que apenas há poucos dias deixou de ser uma unidade e que, agora, tem diante de si, dia e noite, aquele ser que mama, chora, faz xixi, cocô e, às vezes, dorme.
Toda vez que tenho um bebê nu na maca diante de mim, lembro do professor Eduardo Marcondes, catedrático da Pediatria na minha época de estudante, que nos ensinou a examinar um recém nascido de baixo para cima — começo pelos pezinhos e subo até a moleira e, sempre, é inevitável perceber que, ali, diante de mim, está um milagre, uma vida, que brotou do quase nada. Carrego aquele ser na palma de uma das mãos para pesá-lo.
Aquele miniser me lembra um bichinho. Manifesta-se apenas por seus sentimentos e sensações, não atingiu o plano da racionalidade. Muitas vezes, tento orientar a mãe que mais do que entender, ela deve sentir. A relação com seu rebento, nessa fase da vida, não se encontra na esfera da lógica, está no universo da afetividade.
Sou um ferrenho defensor do aleitamento natural e não acho demais repetir o porquê: é o alimento mais adequado para uma criança recém nascida (é bom não esquecer que o leite de vaca, matéria prima de todas as fórmulas lácteas infantis, é o mais adequado para bezerros...), propicia o contato do(a) bebê com o seio materno e, dessa forma, gera segurança emocional para quem mama e realização para quem amamenta. Em suma: é bom e barato. E à medida em que esse pequeno ser cresce e se desenvolve, um milagre atrás do outro passa a ocorrer: o sorriso, os cinco sentidos que começam a perceber o mundo, os movimentos que se sofisticam a cada semana até que engatinha e, quando se põe em pé, conquista um dom característico da condição humana: a postura ereta. É um privilégio ver o deslumbramento que toma conta daquele entezinho cambaleante dando seus primeiros passos. Neurônios e sinapses se multiplicam até que novo atributo é conquistado: a fala, lá pelos dois anos. Mais um grande momento: aquele em que ao expressar-se com palavras dá-se conta de que tem identidade própria, não é mais um apêndice materno. Perceber-se como um indivíduo o deixa com um ego insuflado, todo poderoso e quando entram no consultório o fazem com uma altivez napoleônica: baixinhos, empertigados e de nariz empinado. É a idade do NÃO; negam-se a fazer tudo o que se lhes pede, acham-se donos da verdade e, caso não sejam tratados com doce firmeza serão verdadeiros tiranetes a impor seus caprichos a pais, mães, avós e todos os que estiverem a sua volta. Muitas vezes entram no consultório aos gritos, esperneando no colo da mãe pois meu avental branco lhes evoca reminiscências terríveis de agulhas e abaixadores de língua, mesmo que nunca tenham me visto antes. Difícil examinar a figurinha em franco desespero. Já levei chutes, mordidas, cusparadas e, mais uma vez, tenho em mente as palavras do professor Marcondes: “Para examinar uma criança rebelde, que resolveu que não quer ser examinada, use apenas a força necessária para contê-la”. Isso funcionou bem durante muito tempo. A cruel devastação que o tempo tem feito sobre mim faz com que os joelhos aos pinotes dos pequenos me escapem das mãos, mais fracas do que antes e doloridas pela artrite como nunca. Terminada a batalha sobre a maca, como que por encanto se acalmam, em silêncio me encaram entre lágrimas e soluços e, eu, já sentado no meu canto, sustento o olhar e pergunto: “Porque você chorou?” Em resposta, envergonhados, viram o rosto e se enterram no colo da mãe. É a hora de tirar do bolso do avental um abaixador de língua e desenhar em cada face do palito uma caretinha com cabelos longos, se menina, ou com um topete eriçado, se menino. De um lado uma boca sorrindo e de outro, uma chorando. Coloco o desenho sobre minha mesa a uma distância tal que possa ver o que fiz e digo: “Olha: aqui você está feliz e aqui você está triste”. Muito eficaz para cativar. Me encanta ver a curiosidade com que viram o palito de um lado e de outro.
Quando o clique do mouse abre a página de entrada do prontuário de alguém com seus quatro ou cinco anos, fico animado para logo atender a figurinha. Adoro a escolha de palavras e frases que tenho que usar na idade dos “porquês” para explicar-lhes o porquê do meu avental branco, do gelado do estetoscópio, do carimbo na receita, do exame da garganta, do otoscópio... E surpresas acontecem quando se intrometem no meu diálogo com os pais. Inesquecível o dia em que perguntei ao casal sobre o odor das fezes do pimpolho que estava com diarreia. Respondeu a mãe:
— Ah! Doutor, bem fedidas.
Eis que, sem ser questionado, o pequeno diz com todas as letras:
— É né? O pum do papai é o mais fedido de todos...
Os tempos mudaram. Anos atrás, quando os pais não traziam um brinquedo ou livrinho para distrair a criança durante a consulta, eu tinha numa gaveta da minha mesa um estojo com lápis de cor que oferecia para que desenhassem. Funcionava muitas vezes como entretenimento. Hoje, até bebês são hipnotizados pelas telas dos celulares dos pais para se aquietarem e já nem me arrisco a mostrar meus lápis com receio de parecer obsoleto.
À medida em que crescem, chegam calmos e, muitas vezes, alegres ao consultório pois ali não é mais um ambiente hostil. Sempre riem quando tiram o calçado e pergunto: “ Tem chulé?” Ainda, como subterfúgio para fortalecer o vínculo médico/pequeno paciente, pergunto: “Quantos anos você tem?” Respondem com prazer pois sabem que, em seguida, contraponho um elogio que os envaidece: “Tuuudo isso?!” E embora, eu não demonstre, quem fica envaidecido sou eu quando a mãe relata: “ Doutor, ele amanheceu doente hoje e disse: ‘me leva no tio Walter’”.
Por mais que tenha visto, é sempre surpreendente presenciar a eclosão da puberdade em meninos e meninas. Mais um mistério: como e por quê, a partir de um determinado momento da vida de uma criança, testículos e ovários começam a gotejar hormônios sexuais no seu sangue, provocando mudanças físicas e psicológicas tão marcantes a ponto de assombrar quem se transforma e quem com eles convive? Inclusive eu. Botões mamários, bigode, glúteos que se arredondam, músculos que crescem, sangue menstrual, voz grossa, espinhas no rosto, tudo isso e muito mais, banhado por um tsunami emocional que pode envolver timidez, rebeldia, insegurança, arrogância, inquietação, depressão... Estranheza para com o novo corpo e para com a nova vida. Paixões e desejos muitas vezes incompreendidos e incontroláveis. Se não os vejo há alguns meses, me parecem outra pessoa quando entram na minha sala. Os gracejos com que os recebia pouco tempo atrás não fazem mais sentido, seriam ofensivos agora. Às vezes, noto que o desafio que a vida lhes apresenta assusta e, no íntimo, até cogitam voltar para trás o relógio do tempo, retornar ao aconchego da infância e protelar o futuro para sempre.
E, a culminar essa fase, boa parte dos jovens tem pela frente um verdadeiro rito de passagem: o vestibular. É a ponte que têm que cruzar quando desejam fincar os pés na terra dos que possuem um curso superior. E que ponte! Que obstáculo! Alguns deles, temerosos do fracasso, sequer tentam enfrentar o desafio. Outros, permanecem alguns anos achatando as nádegas e cozinhando o cérebro até que consigam o intento. Mas, antes de se sentarem diante do papel da prova, devem optar pela carreira a ser seguida, o que é mais um leão a ser abatido nessa aventura de viver. Um teste psicológico vocacional pode ajudar pois muitos não sabem “o que querem ser quando crescerem”. (era assim que se falava antigamente...) Quando chegam a comentar comigo sobre esse dilema que tanto os faz sofrer, tento ajudá-los perguntando em que situação profissional gostariam de estar em dez anos. Projetar o futuro ajuda a pavimentar o caminho para chegar até ele. Projeção, também, é o que muitos pais fazem ao transferir para os filhos os próprios desejos que não puderam realizar. Julgam os filhos como propriedade sua e se sentem no direito de manipular a vida deles. É uma conversa que gosto de ter. Peço para consultarem o coração e ouvirem onde está a atividade profissional que os fará feliz. Insisto para não priorizarem o dinheiro. Dinheiro é consequência e, não, ponto de partida. Porque, explico a eles, se você faz o que gosta, irá fazê-lo bem e, assim, terá um vento favorável a impulsioná-lo(a) no caminho do sucesso.

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