O médico e o bairro. Parte IV
Num meio de tarde, sala de espera quase vazia, a secretária me passa um recado após eu ter terminado uma consulta: Dona Celeste Brito não estava bem e queria falar comigo com urgência. Assim que pude, telefonei a ela.
— Dona Celeste ? doutor Walter quem fala.
— Sim, doutor, sou a esposa do Paulo Brito ― do outro lado da linha, uma voz baixa, queixosa, fazia seu relato entre gemidos ―, somos seus pacientes aqui da rua Vanderlei, o senhor está lembrado?
Sim, eu me lembrava de um chamado noturno para examinar o marido com falta de ar, numa crise de asma.
— Claro, dona Celeste, o que está acontecendo?
— Doutor, deitei para descansar um pouco depois de arrumar a cozinha — fez uma pausa como que tomando fôlego e imaginei que se ajeitava na cama — e, de repente, começou uma dor na perna que mal consigo me mexer — soltou mais um gemido. — O Paulo foi pra cidade atrás de selos e eu estou sozinha em casa, assustada, nunca tive isso.
Silenciei por um instante para organizar os pensamentos. Poderia ser uma trombose, pois era mulher de meia idade, numa tarde quente, e ela ficara muito tempo em pé arrumando a cozinha.
— Uma perna só ou as duas?
— Só a direita.
— Qual a altura da perna em que a senhora sente dor?
— Na coxa, perto da virilha.
— Sentiu febre?
— Acho que não, doutor, mas tive uns arrepios estranhos.
Não deveria ser uma trombose venosa, a dor mais provável para isso seria na panturrilha. Na altura da virilha, poderia ser artrite do quadril, aguda, pois parecia ter febre; ou apendicite, pois era à direita.
— Dona Celeste, preciso vê-la, me dê seu endereço. Como faço para entrar na sua casa? A senhora me disse que está sozinha.
Um gemido, mais pungente agora.
— Não tem problema, doutor, o Paulo deixou a porta aberta. É a casa do portão amarelo, quase de esquina, entre a Cardoso de Almeida e a Monte Alegre. O senhor já veio aqui uma vez atender meu marido, lembra?
Sim, eu me lembrava de um chamado noturno para examinar o marido com falta de ar, numa crise de asma.
— Claro, dona Celeste, tenho mais um paciente para examinar aqui no consultório. Logo mais estarei aí.
Ela me agradeceu depois de um choramingo e quase suplicando pediu que eu não demorasse.
Assim que esvaziei a sala de espera, peguei minha maleta com medicamentos e instrumentos e fui andando. Sua casa ficava a duas quadras do consultório. Toquei a campainha e pisei, pé ante pé, em cada pedra como estrelas do mar que marcava o caminho do jardim entre o portão amarelo e o vestíbulo antes da porta da sala. Entreabri sem entrar.
— Dona Celeste, doutor Walter.
Estranhei a voz forte com que autorizou minha entrada. Era uma casa térrea e, da sala, saía um corredor. Lembrei-me, o quarto do casal era no final dele.
Dona Celeste estava na cama, coberta até a cintura com um lençol azul claro, banhada pela claridade da tarde vinda da janela aberta que dava para o quintal.
Bonita, havia chegado aos quarenta anos sem filhos por infertilidade do marido ― uma caxumba que acometera os dois testículos na adolescência. Estava maquiada com demasiado esmero para uma mulher recém-saída de uma pia cheia de louça do almoço. Uma sombra levemente azulada cobria as pálpebras e a face acetinada pelo pó compacto ostentava os lábios grossos tingidos por um batom marrom avermelhado. Vestia uma camisola decotada, cor de rosa, com pequenas flores brancas bordadas na altura do peito.
Depois de lhe estender a mão para um cumprimento, rastreei a sala com o olhar em busca de uma cadeira para sentar-me ao lado da cama. Ela percebeu:
— Pode sentar-se na cama, doutor — e afastou-se para me deixar a beirada.
As respostas que me deu quando interrogada sobre o início, intensidade e irradiação da dor bem como a relação desta com seus movimentos não me ajudaram a formular um diagnóstico consistente. Cogitei encaminhá-la a um pronto socorro para exames complementares. Talvez o exame físico me trouxesse ajuda.
― Dona Celeste, vou afastar o lençol, com licença.
A camisola a cobria até os joelhos. Mirando seu rosto para não dirigir o olhar para a coxa que se expunha quando dobrei e rodei sua perna para avaliar a articulação do quadril, perguntei:
— Sente dor quando rodo para cá?
— Não, doutor — de fato, nenhuma expressão de dor. Estranhei o langor de sua fala.
— E para o outro lado?
— Também não, doutor — e com um suspiro, de olhos fechados, agarrou minha mão e a colocou sobre seu sexo. — É aqui que eu quero sua ajuda!
Fez menção de levantar-se para me beijar, mas tombou de costas quando me desvencilhei de sua mão que usava meu braço como apoio. Embasbacado, ignorei seu ar de súplica e desapontamento. Guardando o aparelho de pressão, concentrei-me na receita a ser escrita apenas para comprovar ao marido que a esposa havia sido consultada: Algitanderil®, um comprimido a cada 12hs. Orientei como tomar o anti-inflamatório sem tirar os olhos do papel e me pus em pé à espera do pagamento da consulta. Sem jeito, balbuciou:
— O Paulo passa no consultório mais tarde para pagar o senhor — disse, me dando as costas e se cobrindo com o lençol. ― Obrigado por ter vindo — e senti que a vergonha dos seus últimos gestos também tomava conta de mim.
Ao sair, o sol forte do meio da tarde bateu em cheio no rosto, me cegando por instantes. Virei à direita, atravessei a rua procurando a sombra, e subi acelerado as ladeiras que me separavam do consultório; uma forte expiração a cada quatro passos, como se corresse. Lentamente, meu espanto se esvaiu com o sangue fluindo rápido e me perguntei o que Dona Celeste estaria pensando naquele momento. Teria se arrependido e se odiado pela ousadia que desnudou suas intenções? Ou estaria me detestando porque a rejeitara? Espalharia pelo bairro que eu não era de nada? Será que o doutor Ferrari ...? Mas e eu, o que ela teria visto em mim ? Estranho ter me sentido como objeto de desejo. Teria sido minha roupa branca, capaz de atrair mulheres como a farda dos bombeiros? Ou minha juventude comparada à senilidade do seu marido? Talvez, também, estivesse testando seu poder de sedução, para acreditar que sua vida não estivesse em decadência. Eu teria sido um troféu para ser exibido para quem? Ou simplesmente lhe bastaria a constatação íntima, secreta, de que me fascinara?

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