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O médico no bairro

Foto do escritor: Walter Labonia Filho
Walter Labonia Filho
18 de mar. de 2025
5 min de leitura

Muito especial foi aquela consulta domiciliar, na rua Avanhandava, perto da Avenida Nove de Julho. A Avanhandava não era o "boulevard" de gastronomia que é hoje. De restaurante, só havia o "Gigetto", que insistiu em permanecer por lá até há pouco tempo, apesar da poderosa concorrência que o envolvia. Naquele tempo, ele estava  no auge de sua fama como ponto de encontro de artistas e intelectuais, que lá jantavam após os espetáculos nos teatros do Bixiga, da Augusta e da Nestor Pestana. 


Pois bem, o endereço que me foi dado era ocupado por um velho sobrado, com a fachada acinzentada pela chuva e pela fumaça da cidade. Um pequeno portão a meia altura dava passagem para uma garagem descoberta, sem nenhum carro a ocupá-la, e, ao fundo, para uma porta de madeira trabalhada, lascada e carcomida pelo tempo, com uma janelinha de vidro protegida por uma grade de ferro. Atendendo ao toque da campainha, uma velha senhora olhou por ela. Tinha um lenço branco amarrado na cabeça que deixava entrever a cabeleira branca. Quando abriu a porta e me convidou a entrar, o sorriso deixou seu rosto  marcado por feixes de vincos.. Cumprimentei-a com um aperto de mão, já me apresentando. 


― Ah! É o Senhor que está no lugar do doutor Ferrari ?― disse ela enquanto eu tentava controlar a náusea provocada por um odor ofensivo, indefinido para mim, até ouvir um miado logo acima de minha cabeça. Um gato amarelo malhado me olhava com os bigodes eriçados, equilibrado sobre o corrimão de uma escada que, da sala de estar onde estávamos, levava ao andar superior. Outros miados, vindos de várias direções, denunciaram a presença de sei lá quantos bichanos de pelos e olhos multicoloridos.


 ― O senhor aceita um café, um suco de laranja ?


― Não, muito obrigado ― tentando ser o mais cordial possível mas, de novo, nauseado só de pensar na louça da cozinha pisoteada e farejada pelos gatos. ― Onde podemos conversar ?


― Lá em cima, doutor. Minha mãe está lá.


 Percebendo meu mal disfarçado espanto, minha anfitriã que, até aquele momento, eu imaginava ser a paciente, desculpou-se por não tê-los prendido e justificou sua falta por eu ter chegado um pouco antes do combinado. Apressou-se em me conduzir escada acima e, prestativa, ficou entre mim e o gato do corrimão que expunha os dentes em desaprovação por eu estar ali.  


O quarto cheirava a talco barato e urina, agora humana. No meio do aposento, estava a paciente deitada de lado e encolhida como um caracol numa cama que mais parecia um catre. Peguei uma cadeira e sentei-me ao seu lado. Por um instante, fitou-me indecisa com olhos que mal se abriam sob o peso das pálpebras. Sorriu-me sem qualquer dente e hematomas manchavam a pele friável e engruvinhada dos seus braços.  Depois de me apresentar, fiz perguntas ora para a mãe ora para a filha. Concentrado no interrogatório e já tentando imaginar possibilidades diagnósticas, demorei a me dar conta das ferroadas que espetavam meu pescoço, minhas orelhas e eu veladamente me coçava. Ao sentir que também as pernas fervilhavam, olhei para baixo e dei com dezenas de pulgas, com seu marrom em nítido contraste com minha roupa branca, subindo pelas calças e pela camisa. 


― A senhora notou sangue no catarro? ― perguntei enquanto beliscava minha coxa tentando esmagar minha algoz. 


Respirei fundo. Imaginei-me batendo em retirada e besuntado com um repelente que compraria na farmácia mais próxima. Minha timidez, o ridículo de uma saída desastrada e o constrangimento por que passariam as duas senhoras me fizeram optar pela postura do herói: impávido, porém, agora, apressado.  Como um gesto de quem reflete no que se passa, cravei as unhas no pescoço e me cocei para amenizar a ferroada ávida por provar o sangue inédito da minha jugular.  Sequer estava preocupado que as duas mulheres pudessem notar meu aperto. A paciente tinha alguns estertores pulmonares localizados, mas respirava sem esforço, estava corada, lúcida, tinha se alimentado bem e foi a febre do dia anterior e um pouco de tosse que levaram sua filha a me chamar. Peguei a maleta que repousava no chão ao meu lado, cruzei as pernas e a coloquei sobre a coxa fazendo parecer que, deixando-a mais alta, ficava mais confortável para prescrever. Na verdade, ocultava por debaixo da maleta a  tímida agonia de me esfregar na tentativa de  amassar com a  perna quem me sugava o testículo direito. Se pudesse, incinerava a pele com a brasa de um cigarro.


Receitei um antibiótico, inalações com um nebulizador caseiro e uma orientação sobre tapotagem na parede torácica que ajudariam a desprender o catarro. Saí do quarto coçando a barriga como quem coloca a camisa para dentro da calça. Recomendei que evitasse ficar deitada por longos períodos e se mantivesse bem hidratada para que as secreções pulmonares não se tornassem espessas, dificultando sua eliminação pela tosse. Antitérmico se necessário. Pedi notícias no dia seguinte, por telefone, e já combinei outra visita duas noites depois, para nova avaliação. 


Não me lembro da filha ter feito qualquer comentário sobre as pulgas, justificando-se como fizera com os gatos. Desci a escada arranhando o pescoço, em louca antecipação por quando poderia fazê-lo pelo corpo inteiro, e fui recebido com um coral de miados. O fedor estava tão forte que pareciam ter acabado de mijar na casa inteira. Como se estivesse mergulhado num formigueiro, o corpo todo picava e coçava enquanto recebia os honorários e me despedia. Saí rápido, queria estar sozinho para me coçar à vontade e poder amenizar um pouco aquela tortura infligida pelas vorazes hematófagas saltitantes.


Na rua, assim que fechei o portãozinho de ferro, com um último aceno para a filha que me olhava pela janelinha da porta da sala, esfreguei vigorosamente as orelhas com a palma de uma mão enquanto a outra segurava minha maleta. Por dentro da camisa e das calças, enterrava as unhas na pele e, correndo, entrei no carro. O corpo todo estava quente e pulsava. O trânsito livre àquela hora da noite facilitava as ultrapassagens e eu não hesitava em passar faróis no vermelho sempre que possível ― não havia radares como hoje. No caminho de volta, elaborava meu plano para que tivesse um resto de noite com um mínimo de paz. Potyra estava com dois anos e, em hipótese alguma, poderia permitir que ela servisse de alimento para as minhas parasitas, nem poderia deixar que minha casa fosse invadida por elas. Estacionei o carro na garagem e, em vez da porta da frente, usei a entrada lateral que dava para o quintal. 


― Não vem aqui, estou cheio de pulgas! ― gritei enérgico para Regina, que acabara de abrir a porta da cozinha com a filha no colo. Tampei o ralo, abri a torneira do tanque da lavanderia e, sadicamente, sorri ao imaginá-las se afogando enquanto mergulhava toda minha roupa na água com sabão em pó. Nu no quintal, pude ver o rendilhado vermelho e branco em que minha pele se transformara. Tomei um demorado banho de  chuveiro na edícula enquanto ria sozinho dos ossos do meu ofício.


Duas noites depois, conforme combinado, voltei para ver a paciente. Agora eu estava coberto por múltiplas camadas de repelente. Ela estava melhor, fora da cama, sentadinha numa poltrona do quarto. Não vi nenhum dos gatos, ouvia apenas os miados e o roçar de suas garras nas portas que os detinham, mas o cheiro da urina dos felinos estava mais do que presente e, talvez porque já estivesse me acostumando, não senti náuseas como da primeira vez em que lá estivera. Havia um outro odor, de inseticida. Não notei nenhuma pulga escalando minha roupa branca, mostrando que a providência saneadora tomada pela filha e meu repelente haviam surtido efeito. A coceira porém, que já diminuira dois dias depois das picadas, só de entrar ali começou a se espalhar pelo corpo inteiro, me deixando, novamente, com a pulga atrás da orelha... 

 
 
 

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2 comentários


agnaldomartino
19 de mar. de 2025

Quase não pude terminar de ler, pelo desespero de pensar nessas pulgas… Mas fui até o final, e adorei a narrativa. Excelente texto, e uma ótima história!

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Walter Labonia Filho
Walter Labonia Filho
25 de mar. de 2025
Respondendo a

Muito obrigada, Agnaldo!

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