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O médico no bairro. Tantas histórias.

Foto do escritor: Walter Labonia Filho
Walter Labonia Filho
17 de abr. de 2025
5 min de leitura

Quando comecei a trabalhar no bairro, as ruas não eram a paliçada de edifícios de hoje, as consultas eram pagas em dinheiro ou cheque — não havia maquinetas para se pagar com cartão ―, o vínculo médico paciente não estava fragilizado pela intermediação dos planos de saúde. A contrapartida do pagamento era a disponibilidade do profissional para assistir o paciente. A qualquer hora, em qualquer dia. 

O telefone de casa tocava e a voz do outro lado pedia, cobrava, minha presença, porque o bebê estava com febre alta, porque o idoso estava confuso e entortando a boca, porque a menina não comia há três dias depois da briga com o namorado, porque a dor de cabeça era insuportável, porque a mãe não acordava e achavam que tinha morrido... Havia até os bips, precursores jurássicos dos celulares, pouco confiáveis pela quantidade de alarmes falsos ou por não alarmarem quando deviam. Aquelas caixinhas agudamente sonoras, com pilhas, me enlouqueciam pelo desvario que suscitavam quando, na avenida Paulista, precisava estacionar o carro e encontrar um orelhão para atender a um chamado. E era preciso sempre ter à mão um bom estoque de fichas telefônicas..  Muitas vezes ri sozinho ao levar as mãos à cintura, procurando pelo bip na beira do Xingu, no Pará, e me dava conta de que eram os pintinhos piando, correndo atrás da mãe galinha...

Era frequente ter dois ou três pacientes para ver em casa, à noite, após terminar o atendimento no consultório. Carregava uma daquelas maletas de couro bojudas, pretas, que se abriam pela parte superior, afastando-se as bordas que se encaixavam uma na outra. Dentro dela, um arsenal: estetoscópio, aparelho de pressão, otoscópio, termômetro, caneta, atestados de óbito, receituárioss, seringas de um a vinte centímetros cúbicos (já havia as de plástico), agulhas descartáveis, luvas de borracha esterilizadas, caixa de metal contendo bisturi, pinças, tesouras, fios e agulhas de sutura, porta agulhas (tudo esterilizado em água fervente), algodão, álcool, mertiolate, gaze, esparadrapo...E os medicamentos: adrenalina, antiespasmódicos, analgésicos, cardiotônicos, diuréticos, anticonvulsivantes, opiáceos, broncodilatadores, anestésicos locais. Eu tinha uma lista datilografada de tudo a ser levado.

Esperança e agradecimento eram o que percebia no semblante do paciente e dos familiares quando entrava na casa. Com frequência, havia uma hospitalidade que beirava a reverência, geralmente por parte da mulher que comandava aquele lar. Era assim que acontecia quando ia na casa de dona Matilde:

— Doutor, acabei de passar um café, o senhor aceita? 

— Não, obrigado. Se eu tomar café agora, não vou conseguir dormir — eu dizia, da forma mais educada possível, para não parecer desfeita. E, para contornar o mal-estar, emendava: 

— Mas se a senhora tiver um copo d’água, eu gostaria.

 Com um sorriso solícito, ela olhava para o teto num relance e, juntando as palmas das mãos, disparava:

— Claro, mas se o senhor preferir, tenho um suco de melão, geladinho. 

— Bom demais. Aceito sim, sem açúcar, por favor.

Até que ela voltasse, poderia ficar conversando com outro familiar, para saber do acontecido com o paciente. Se não houvesse mais ninguém, alimentava minha curiosidade e imaginação tentando decifrar a história daquela gente pela mobília e pelos personagens, muitas vezes esmaecidos, que me vigiavam dos retratos pendurados nas paredes ou apoiados no alto de uma cristaleira. Se essas imagens pudessem contar a seus parentes que eu discutira ferozmente com Regina pouco antes e que minha filha chorava por causa dos nossos gritos quando saí, eles me venerariam da mesma forma? Teriam a mesma confiança se soubessem das minhas limitações para tratar mal de Parkinson ou qualquer leucemia? Ainda bem que não me chamaram na noite anterior quando havia tomado meia garrafa de vinho.  Embora tivesse a plena consciência de não ser o ente superior que sua expectativa presumia, o fato de me verem assim  fazia com que desse o melhor de mim para estar o mais próximo possível daquilo que eles esperavam que eu fosse. Eu não era, mas, naquele momento, eles me ajudavam a ser. 

Terminado esse respeitoso ritual de recepção, começava a invasão permitida daquele domicílio. 

— Por favor, onde posso lavar as mãos? 

Sem ocultar a ansiedade que vinha demonstrando desde que eu chegara, dona Matilde quase saltou da cadeira, tomou a frente e  me levando ao banheiro, o único daquela casa antiga do Sumaré. Era sempre uma surpresa o momento do banheiro, pois poderia encontrar ali um sabonete novo e uma toalha de rosto perfumada, recém-saída da gaveta, naquelas famílias que já sabiam do meu modo de atender, ou, pegos sem aviso, eu teria que aguardar um minuto ou dois enquanto se providenciava um outro sabonete e uma toalha limpa.

Na escola, não se aprende a examinar um doente em casa. Tive que aprender sozinho. É bom aproximar-se dele com um sorriso confiante e cumprimentá-lo de forma afetiva mas sem ser calorosa ― não é adequado abraçar de forma efusiva alguém que sofre. O ato seguinte desse teatro era pedir uma cadeira para que me sentasse ao lado da cama do paciente, o que era mais confortável para ambos e impedia uma troca de germes entre nós.

Quando voltei do Xingu, numa das primeiras vezes em que fiz uma consulta domiciliar, no momento em que solicitei à doente  ― uma senhora gorda e muito idosa ― que tirasse o casaco para examiná-la, sua filha me ofereceu duas pequenas toalhas, dobradas em quatro, impecavelmente brancas e limpas. 

— O senhor precisa delas, doutor? 

Por alguns segundos, tentei atinar com a serventia daqueles panos perfumados de sabão em pó e alvejante. Percebendo minha ignorância, ela me ajudou:

 — São para o senhor escutar ela, doutor. 

Parece que ouvi o ranger das dobradiças da memória e vislumbrei um médico careca, barrigudo, com óculos de aro dourado, bigodes longos retorcidos em caracol, vestindo uma casaca preta, com o ouvido colado às costas de um paciente sentado na cama. Entre eles, uma toalhinha daquelas que ainda estavam à minha frente. De onde viera a imagem? De um filme, livro, relato, quadro, telepatia com aquela senhora, pouco menos velha que a mãe?

— Não, obrigado — respondi  meio sem jeito. — Tenho um estetoscópio.

Ela pôs as toalhas sobre uma penteadeira de mesa marfinada onde se articulava um grande espelho redondo e, pela primeira vez, atinei com a praticidade que uma camisola significa durante o exame clínico de uma mulher. Com o tórax exposto pela frente e por trás, fica fácil auscultá-lo.  E, para examinar o abdome, basta  deitar a paciente, cobri-la com o lençol até a cintura e erguer a útil camisola até logo abaixo dos seios. Acho que desde o século passado não atendo uma mulher com tal peça do vestuário.

Após examinar a enferma e orientar  sobre a prescrição, não consegui vencer a inibição e perguntar àquela senhora onde e quando ela presenciara um médico examinando alguém com o auxílio das toalhinhas. Como ela me dera, como um agrado, um pacote de sequilhos quando me despedia e, de passagem, havia falado que procurava matar as saudades da roça em Diamantina plantando mandioca no seu quintal da avenida Pompéia, não foi difícil imaginar o trabalho de um colega, décadas atrás, montado num cavalo, chegando à casa de um caboclo doente no sertão mineiro.

 
 
 

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3 comentários


etarantes
18 de abr. de 2025

Estou surpresa e comovida. Surpresa em ler algo seu e comovida por ver algo seu. Como uma simplicidade tocante ao contar sobre ver-se tratado como um ente superior que,, por um momento, outras pessoas o ajudavam a ser.. Encantada em ver outros lados, entre divertidos e ternos, respeitosos e muito minuciosos nas descrições perfeitas. Que surpresa, dr Walter, depois de 16 anos conhecê-lo mais um pouco.

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ddrika.adri
18 de abr. de 2025

Dr Walter faz parte da história da minha vida! Desde meus poucos anos aos seus cuidados e hoje ele cuidando da minha filha com 21… muitas lembranças de tanto cuidado, conforto ao ouvir sempre bons conselhos e a certeza de estar em boas mãos, pra mim e pra minha família, mãos guiadas por Deus! Obrigada por tudo dr! O sr é muito especial!

Editado
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Maysa Moraes
Maysa Moraes
18 de abr. de 2025

Dr. Walter, que saudades de quando ia ver minha irmã Mairá lá em casa! Algo impensável nos dias de hoje.

Sempre nos lembramos com carinho do Sr.

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